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CORINGA – UMA VÍTIMA DA SOCIEDADE?

Sou eu ou o mundo está ficando mais louco?

Coringa é um filme complexo e requer um certo tempo para conseguir ser digerido de forma adequada. É muita informação que se passa na tela, por isso, é aconselhável assisti-lo mais de uma vez para uma melhor compreensão.

O filme vem recebendo diversas críticas por tentar “justificar a violência”, mas seria Arthur Fleck de fato apenas uma vítima da sociedade? Bem, essa é uma pergunta bem difícil de responder, e vai depender mais sobre a visão de mundo que cada espectador carrega do que daquilo que lhe é de fato apresentado.

Se você ainda não viu o filme, não continue pois teremos SPOILERS a partir daqui.

Primeiro, precisamos deixar claro que Arthur Fleck é um personagem com problemas psiquiátricos. Na primeira conversa com sua psicóloga, já é falado que Arthur havia ficado internado em um sanatório por algum tempo, e os motivos de sua internação ou até mesmo liberação não são revelados. Aliás, o próprio personagem afirma que preferia ter permanecido no manicômio.

Portanto, como um doente mental diagnosticado, Arthur pode ser apenas uma bomba relógio vagando pelas ruas prestes a explodir. Qualquer coisa, a qualquer momento, poderia se tornar um gatilho para sua psicopatia.

A sua loucura torna o Coringa um narrador não confiável. Em diversos momentos somos levados por seus devaneios e alucinações, e isso torna difícil até mesmo separar os fatos concretos das fantasias da mente do personagem. Por isso, é preciso ressalvas antes de definir o quanto de fato o personagem sofreu.

Mesmo assim, vamos virar a página e confiar no ponto de vista que nos é apresentado… Antes de considerar Coringa como bandido ou mocinho, precisamos entender o que é uma vítima da sociedade, e como o personagem pode (ou não) se enquadrar neste conceito.

Uma ‘vítima da sociedade’ é um termo que sugere que o indivíduo não é mau por natureza, mas sim alguém que pode cometer crimes por influência de fatores externos. Em resumo, a ideia é de que vivemos em uma sociedade tão injusta e desigual, que a falta de oportunidades faz com que as pessoas acabem recorrendo a uma vida marginal.

Essa ideia é difundida principalmente por defensores dos direitos humanos e normalmente é utilizada para criticar o estado e o sistema capitalista de uma forma geral.         

O problema desse tipo de pensamento é a sensação de inocência que se dá ao bandido que, na condição de vítima, gera outras vítimas e não deixa de ser um perigo real a população, e essa é uma impressão que não temos de Arthur.

Por mais que Arthur esteja completamente deslocado a margem da sociedade, ele não deixa de ser um perigo e isso é mostrado no filme. “Eu não deveria ter uma arma”, foram suas palavras ao receber o revólver de seu colega palhaço.

Como um filme de origem, a proposta de Coringa é representar Arthur como um “fruto do meio em que vivemos”, e não especificamente como alguém inocente ou vítima.

Outra grande questão está nesta confusão entre capitalismo, estado e sociedade. A sociedade é algo que vai muito além de um viés ideológico partidário, e é aí que repousa a verdadeira reflexão do personagem.

Estamos falando de alguém que foi vítima no âmbito mais pessoal possível: o familiar. Arthur foi abandonado pelo pai e abusado pela própria mãe quando ainda era criança. Refletiu toda a sua carência projetando uma figura paterna em celebridades na TV, como o apresentador Murray Franklin e o socialite Thomas Wayne, e ambos o decepcionaram profundamente.

Arthur foi desprezado e humilhado não apenas pelos políticos de Gotham City, mas também por todos a sua volta. Ídolos, colegas de trabalho, familiares…

Vejo pessoas comparando o Coringa a assaltantes, traficantes, sequestradores, e elas não poderiam estar mais equivocadas.

Vivemos em uma sociedade extremamente violenta e isso faz parte do cotidiano de todos nós, e não apenas das comunidades. Pessoas matam umas as outras por motivos torpes, fúteis, banais…

O menino Rhuan Maycon, de apenas 9 anos, foi mutilado e morto a facadas pela própria mãe em Brasília.

Ano passado, em uma briga de bar, um homem assassinou o capoeirista Moa do Katende a facadas por uma discussão política em Salvador, na Bahia.

Pessoas morrem constantemente por brigas de trânsito, restaurantes ou até mesmo entre vizinhos.

O Coringa é muito mais resultado da nossa falta de empatia do que de qualquer assistência do estado.

“Você viu o mundo lá fora, Murray? As pessoas só gritam uma com as outras”, foram as queixas de Arthur durante a fatídica entrevista do filme.  

Não, o Coringa não é apenas uma vítima da sociedade.

Muito menos herói.

Também não é uma crítica ao “sistema”, aos ricos ou ao capitalismo.

É uma crítica a você e a mim.

A todos nós ou, talvez, a ninguém.

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Criada por dois amigos viciados em conteúdo Geek, este blog surgiu como uma forma de extravasar o estresse do dia a dia produzindo conteúdo de qualidade. De fã para fã… com vocês… a BBKCORP!

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